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domingo, 25 de janeiro de 2009

Adultos [ Vladímir Maiakóvski]

Os adultos fazem negócios.
Têm rublos nos bolsos.
Quer amor? Pois não!
Ei-lo por cem rublos!
E eu, sem casa e sem teto,
com as mãos metidas nos bolsos rasgados,
vagava assombrado.
À noite
vestis os melhores trajes
e ides descansar sobre viúvas ou casadas.
A mim
Moscou me sufocava de abraços
com seus infinitos anéis de praças.
Nos corações, nos relógios
bate o pêndulo dos amantes.
Como se exaltam as duplas no leito do amor!
Eu, que sou a Praça da Paixão, *
surpreendo o pulsar selvagem
do coração das capitais.
Desabotoado, o coração quase de fora,
abria-me ao sol e aos jatos de água.
Entrai com vossas paixões!
Galgai-me com vossos amores!
Doravante não sou mais dono de meu coração!
Nos demais - eu sei,
qualquer um o sabe -
O coração tem domicílio
no peito.
Comigo
a anatomia ficou louca.
Sou todo coração -
em todas as partes palpita.
Oh! Quantas são as primaveras
em vinte anos acesas nesta fornalha!
Uma tal carga
acumulada
torna-se simplesmente insuportável.
Insuportável
não para o verso
de veras.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

momento ego

Agradeço do fundo do coração, Dudu, pela poesia vinda em torpedos numa noite de pizzaria sem você...
_________________________
LONGE (OU ANNA)

Saudade doce:

De café,

De beijo,

De cheiro,

De toque.

Saudade pele:

Colo,

Seca,

Riso.

Do rosto,

Dos cabelos:

Que ficam

Que vão.

Saudade água


De puro sal.

De Eduardo Vasconcelos pra esta que vos fala.

quinta-feira, 8 de março de 2007

Bilhete de Identidade [Mahmud Darwish]

Escreve! Sou árabe

e o meu bilhete de identidade é o cinquenta mil;

tenho oito filhos

e o nono chegará no final do Verão.

Vais zangar-te?

.

Escreve!

Sou árabe.

Trabalho na pedreira

com os meus companheiros de infortúnio.

Arranco das rochas o pão,

as roupas e os livros

para os meus oito filhos.

Não mendigo caridade à tua porta,

nem me humilho nas tuas antecâmaras.

Vais zangar-te?

,

Escreve!

Sou árabe.

Sou um homem sem título.

Espero, paciente, num país

em que tudo o que há existe em raiva.

As minhas raízes

foram enterradas antes do início dos tempos

antes da abertura das eras,

antes dos pinheiros e das oliveiras,

antes que tivesse nascido a erva.

O meu pai descende do arado,

e não de senhores poderosos.

O meu avô foi lavrador,

sem honras nem títulos,

e ensinou-me o orgulho do sol

antes de me ensinar a ler.

A minha casa é uma cabana,

feita de ramos e de canas.

Estás feliz com o meu estatuto?

Tenho um nome, não tenho título.

.

Escreve!

Sou árabe.

Roubaste os pomares dos meus antepassados

e a terra que eu cultivava com os meus filhos;

não me deixaste nada,

apenas estas rochas;

O governo vai tirar-me as rochas,

como me disseram?

.

Escreve, então,

no cimo da primeira página:

a ninguém odeio, a ninguém roubo.

Mas, se tiver fome,

devorarei a carne do usurpador.

Tem cuidado!

Cuidado com a minha fome,

Cuidado com a minha ira!

.

[Mahmud Darwish é um poeta palestino]

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

"de loucura rompeu-se-me o dique da razão"


.
"Alô!
Quem fala?
Mamãe?
Mãe!
Teu filho está esplendidamente enfermo.
Tem um incêndio no coração.
.
(...)
.
Mãe!
Não posso mais cantar.
No templo de meu coração
o altar está em chamas!
Palavras e números
como figuras ardentes
fogem de meu crânio
como crianças de uma casa em fogo.
Era assim que o pavor
de não poder agarrar-se nas nuvens
erguia os braços-labaredas do Lusitânia.
.
Ante a tímida gente
que vive na paz caseira
ergue-se um halo de incêndio
de mil olhos.
Ó meu derradeiro grito!
Dize aos séculos futuros
pelo menos isto:
Que eu estou em chamas.
(1915)
[Maiakóvski - Antologia POética. 4ª edição. Tradução de E. Carrera Guerra]
.
Extrema e lindamente apaixonado. Sempre. Assim foi [e é] Vladimir Maiakóvski. Para sempre ferido mortalmente pelo amor.
.

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

.sinestesia.


Fotos só em P&B.
Só fotos em P&B.
A vida é a cores

O jogo da asa da Bruxa


.eu tenho dois olhos.
.eu tenho dois pés.
.dor dos meus olhos
.vá pros meus pés
.e dos meus pés
prá dentro da terra
.
e da terra para a morte
.
.
.

Casinha.


O lugar onde eu vou morar deve ter flores,
E quem venda frutas por perto
(gosto de passar nas calçadas e sentir o cheiro das carambolas e maçãs molhadas pela água de alguma torneira por aí);
deve ter também alguns livros,
ou uma calçada com sombra onde se possa sentar e ler alguma coisa;
deve ter quem goste de música e quem goste
do silêncio;
deve ter quem ande sempre junto,
quem ligue no meio da noite pra dizer oi,
quem insista para que se diga o que está sentindo justamente quando não se quer falar.

O lugar onde eu vou morar deve ter um ar tranqüilo para contrastar
com a minha constante inconstância,
com a minha necessidade de ar
e com a vontade de parar o tempo quando o sono é tranqüilo.

O lugar onde eu vou morar deve me dar paz para este sono.

O lugar onde eu vou morar deve ser bom para receber os amigos,
os namorados,
e aquele que vêm e que passam;
o lugar onde eu vou morar deve ser perto quando eu queira
e longínquo quando o que se quer é distância.

O lugar onde eu vou morar
deve sanar todas as feridas,
deve criar laços,
e deve,

principalmente,


ser meu.

Cinco carambolas, duas maçãs e pêra.

HOJE COMPREI FRUTAS E ROUBEI FLORES
.
MAS ESTOU CERTA QUE CADA CRIME TEM SEU PERDÃO.

terça-feira, 1 de agosto de 2006

E então, que quereis?...


Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.
Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.
.
Maiakovski(1927)

quinta-feira, 13 de julho de 2006

poeminha

Eu desde sempre fiz versos
desde cedo vivi poesia...
mas você me desconcerta toda,
.você não me inspira nada
Você é só imagem.
.mas mesmo assim eu [suspiro]
(E eu que achava
Que não havia encanto
Na sua beleza exterior...)

terça-feira, 16 de maio de 2006

À um pessimista desenganado, e especialmente à Donna Z.

Represéntanse la brevedad de lo que se vive y cuán nada parece lo que se vivió
Ah de la vida!... Nadie me responde?
Aquí de los antanõs que ha vivido!
La fortuna mis tiempos ha mordido,
Las horas mi locura las esconde.
Que sin poder como ni adonde
la salud y la edad se hayan huido!
Falta la vida, asiste lo vivido,
y no hay calamidad que non me ronde.
Ayer se fue, mañana no hay llegado
hoy se está yendo sin parar un punto
Soy un fue, y un será, y un es cansado.
En el hoy mañana y ayer junto
pañales y mortaja, y he quedado
presentes sucesiones de difunto.
Luis de Gongora y Argote

quinta-feira, 11 de maio de 2006

Poesia I

O sereno costura pedaços de sono aos restos de noite...
tenores dividem o espaço com bichos,
tornam-se em grilos,
partem-se em escuridão...
A saudade da água esfria a alma,
a vontade torna líquidos os atos.
Sons de vozes desagradáveis dão-me falta do silêncio,
um jeito cuidadoso na fala me traz a atenção de volta...
Nesse momento parece que não sou eu
quem fala
e escreve.
[10/05/2006] Ontem, durante a aula de Barroco.