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domingo, 7 de junho de 2009

eduardo galeano

eu estava bem feliz lendo sêneca. na verdade, eu tava bem feliz por ler sêneca, mas bem preocupada com os lances de a vida não é curta, você que é inútil ou quem acha que a vida não é boa o suficiente é porque não é bom o suficiente pra viver que enchem o livro do camarada aí (até onde eu li, pelo menos).

eis que me aparece um conto de eduardo galeano, umas poucas linhas, rapidinhas mas tão cheias de beleza, tão sutil, tão sublime, que eu parei o sêneca, desci na leitura e comprei o livro dos abraços, que se eu pudesse escolher estaria lendo desde os meus quatro anos de idade. e enquanto eu leio galeano, dando prosseguimento ao quinze páginas por mês, extensão de um livro em míseros sete dias, fica aí o conto e o pequeno diego.

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos.
E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:

- Me ajuda a olhar!

sábado, 30 de maio de 2009

projetos

depois de décadas de ajuntamento de livros, filmes e músicas, vamos começar los grandes proyectos: Um Filme por Dia e Um Livro por Semana.
também serão empreendidos um projeto no mesmo esquema, relacionado à música (mas ainda não me decidi qual o esquema, uma espécie de "um álbum por dia" ou "um artista por vez", nosso departamento projetístico está trabalhando em cima disso); o projeto de até o fim do ano tirar algo do violão que não sejam calos nas mãos e cordas arrebentadas, alguma coisa relacionada à fotografia (coimalinda!) e aprender decentemente espanhol. e, obviamente, outros projetos serão incorporados à lista. e se algum deles chegar pelo menos à metade, poderemos considerar isso um grande avanço da minha parte.

pois bem.

profundamente dedicados à ociosidade luminosa e produtiva e ao bom aproveitamento do tempo e da vida, os assim chamados "projetos" consistem em, dois pontos

a) como o nome já diz, o Um Filme por Dia irá se dedicar, ou eu irei me dedicar, a assistir todos os filmes que tiverem a sorte de passar pelos meus olhos (vou tentar me controlar e não assistir o labirinto do fauno mais mil vezes). para isso contaremos com um grande acervo de filmes baixados, copiados, backupiados, comprados, locados e emprestados, um por dia -na medida do possível- que serão comentados aqui nesse moribundo blog.
sim, aceitamos sugestões :-P

b) Um Livro por Semana: a book per week, aiquitesón, é um ótimo motivo para eu começar a ler os livros que eu comprei e ainda não li. o único motivo é o prazer em si, já que isso de ler livro obrigado é o pior castigo do mundo e eu nunca precisei disso. o projeto Um Filme... (escrevendo igual jornalista, ui) já existia, e é fruto do anteprojeto musical da mesma espécie (e ainda sem nome/ planejamento). Conversando com Lelê Teles, me veio a idéia de fazer o mesmo com livros

abre parênteses:
eu: (...) eu pouco tenho lido, mas to comprando tanto livro que mal tá cabendo em casa!
ele: os livros nos encantam e nos educam até mesmo com a sua presença, além de ter o poder de seduzir os outros.
(achei lindo isso)

fecha parênteses

o esquema de leitura é o seguinte: nenhum. posso começar lendo livros por ordem alfabética, por ordem de tamanho, por ordem inversa de tamanho ou por cor da capa, whatever. não vai adiantar nada mesmo, todo hora vão aparecer regras novas e sumir outras (quem gosta de calvinbol levanta a mão).

e por falar em comprar livros, daniel lopes, aquela fofura, me vendeu as cem melhores crônicas, do mário prata; o queremos tanto a glenda, do cortázar; o granta, volume 3; o amor e lixo, do ivan klíma e ainda vai me mandar de brinde o tre cavalli, que vai de presente pro camarada marcos lima. tudo isso por um preço pra lá de bão. quem quiser testar, vai lá na prateleira dele na ev.

então é isso, vamos ao primeiro filme.


ps: o lance é comentar filmes e livros, discordar, concordar ou confundir. pra fazer crítica profunda e bem fundamentada têm outros seres se dedicando que não eu.

psii: comecei ontem o sobre a brevidade da vida, do sêneca (o diderot, já no século xviii e antes que caetano pudesse dizer algo, tascou logo um "esse tratado é lindo", no melhor sotaque baiano), vamo ver o que dá.

psiii: baixei o the complete recordings, do robert johnson. cavernoso. o hômi falou com o capeta mesmo, certeza.

psiv: meu irmão até que enfim aprendeu o que é bom da vida e vendeu sua alma ao rock n' roll. ou não. o fato é que ele me apresentou a kiss fm tem algumas horas, e eu já ouvi kiss, ac/dc, heaven & hell e led zeppelin, então vale a pena ;-)

segunda-feira, 5 de maio de 2008

de gente sozinha e música

Engraçado, depois de passar uma manhã quase toda ouvindo todas as versões que consegui encontrar de I Wish You Were Here (a do Pink Floyd, não a dos Bidis), comecei a achá-la muito parecida com Nowergian Wood (o livro, não a música). Há uma multidão de gente sozinha escrevendo e compondo sobre solidão...

Norwegian Wood II

356 páginas muito boas e um último páragrafo de 6 linhas imprestável.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Norwegian Wood

Eu simplesmente não consigo ir pra frente com a leitura da droga do Norwegian Wood, porque toda vez que eu o pego pra ler, dispara a música na minha cabeça e não pára de tocar.
O pior é que é uma música que eu adoro. Tô ficando atormentada.

sábado, 19 de abril de 2008

livros

Estou lendo dois romances que têm muito em comum (e isso nada tem a ver com eles em si): Norwegian Wood, do japonês Haruki Murakami e O Perfume, do escritor alemão Patrick Süskind. Uma das coisas que os ligam é o fato de serem autores novos para mim (assim como a literatura japonesa também me é nova). A outra, é de terem um enredo completamente estranho ao meu gosto de leitora. O primeiro –que acabei de começar, então ainda não posso julgá-lo em nada que não seja meramente a “capa”- se passa no final dos anos 60 e conta a história de um jovem de 20 anos que vai morar em Tóquio para estudar na Universidade –algo que me lembra em muito O Apanhador no Campo de Centeio, vamos ver até aonde a parecença vai. O segundo é a história de um serial killer nascido na Paris fedorenta do século XVIII e que percebe que pode manipular as pessoas através do olfato.

Livros assim geralmente não me chamariam a atenção. Aliás, nem a encadernação deles me chamaria a atenção. O Perfume faz o tipo clássico sisudo, na capa azul marinho dura com cara de coleção. A edição que a Objetiva fez para Norwegian Wood segue o estilo modernoso, com imagem de gente e círculos e quadrados sobrepostos, meio preto-e-branco, meio colorido. Histórias de serial killers ou jovens solitários apaixonados não me levariam a ir mais além num livro, mas resolvi –meio inconscientemente- dar uma colher de chá para esses dois (ou para minha experiência com os livros). Outra coisa que coincidiu foram as datas: ambos os livros são da década de 1980 e, se eu não me engano, minhas incursões literárias por essa época são bem escassas.

Enquanto eu faço alquimia com as minhas leituras, os teóricos ficam lá largados. Ah, dane-se. Não é sempre que os livros mandam que a gente os leia.

domingo, 27 de maio de 2007

O pior que poderia acontecer aconteceu: a UnB me saturou, a tal ponto de até a vontade de ler ter se esvaído.

A paixão está ainda intacta. Os livros também: a mania de comprar não diminuiu, a freqüência com que vou às bibliotecas também não. Mas tudo isso só resulta em empréstimos que no máximo só me rendem multas (da última vez esqueci completamente da data de devolução do Machado, e a multa chegou nos oito reais). Mal consigo chegar ao fim de uma página.

Comecei a perceber como a necessidade de leitura é física; é como estar passando por uma crise de abstinência (ou pelo menos é essa a idéia que eu tenho de uma). Situação mais desesperadora impossível: a consciência dói, a mão coça, o sono vai embora. Na quarta-feira cheguei a me levantar a noite pra tentar ler alguma coisa. Mal pego no livro, foi-se a vontade...

Não sei -realmente não sei- o que é isso. Um misto de apatia com desânimo. Começo a acreditar na preguiça pura e simples. Talvez não queira admitir: preguiça de ler é demais. Ter preguiça de ler é como uma praga que rogaram sobre nós. É como ter o remédio pra abstinência à mão, mas do outro lado do vidro...

Mas como todo mal tem seu remédio (na verdade uma camuflagem) foi com alegria que li quase que uma revista toda. Quase toda porque pulei a parte da purelise, ops, música clássica, e a parte de estréia e crítica teatral. Aliás, teatro é outra coisa que há tempos anda gastando só meu tempo e meu dinheiro. E mais aliás ainda, fui assistir à um a peça baseada num livro do Dostoiévski...

Vontade de ler o livro deu, mas a coragem não deixa...

quinta-feira, 15 de março de 2007

.
"Chamem de romance toda narrativa temperada por diálogos e de poemas qualquer declaração ritmada - verão que depois de alguns anos não restarão nem traços de literatura"
.
Mao Zedõng (Mao Tsè-Tung)
in.: Concerto de Fim de Inverno [Ismail Kadaré]

quinta-feira, 8 de março de 2007

Bilhete de Identidade [Mahmud Darwish]

Escreve! Sou árabe

e o meu bilhete de identidade é o cinquenta mil;

tenho oito filhos

e o nono chegará no final do Verão.

Vais zangar-te?

.

Escreve!

Sou árabe.

Trabalho na pedreira

com os meus companheiros de infortúnio.

Arranco das rochas o pão,

as roupas e os livros

para os meus oito filhos.

Não mendigo caridade à tua porta,

nem me humilho nas tuas antecâmaras.

Vais zangar-te?

,

Escreve!

Sou árabe.

Sou um homem sem título.

Espero, paciente, num país

em que tudo o que há existe em raiva.

As minhas raízes

foram enterradas antes do início dos tempos

antes da abertura das eras,

antes dos pinheiros e das oliveiras,

antes que tivesse nascido a erva.

O meu pai descende do arado,

e não de senhores poderosos.

O meu avô foi lavrador,

sem honras nem títulos,

e ensinou-me o orgulho do sol

antes de me ensinar a ler.

A minha casa é uma cabana,

feita de ramos e de canas.

Estás feliz com o meu estatuto?

Tenho um nome, não tenho título.

.

Escreve!

Sou árabe.

Roubaste os pomares dos meus antepassados

e a terra que eu cultivava com os meus filhos;

não me deixaste nada,

apenas estas rochas;

O governo vai tirar-me as rochas,

como me disseram?

.

Escreve, então,

no cimo da primeira página:

a ninguém odeio, a ninguém roubo.

Mas, se tiver fome,

devorarei a carne do usurpador.

Tem cuidado!

Cuidado com a minha fome,

Cuidado com a minha ira!

.

[Mahmud Darwish é um poeta palestino]

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Totalitarismo

"Se os persas invadirem suas terras destruirão suas cidades e as transformarão em pó.

Se os persas invadirem suas terras chacinarão cada homem e cada mulher em seu caminho, não poupando nada da aniquilação.

Se os persas invadirem suas terras crucificarão sua liberdade, e seus hábitos, sua cultura, sumirão para sempre"

- Xerxes, supremo imperador persa.

.

"Se"

- Leônidas, rei espartano, como resposta à ameaça.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007



- What's so unpleasant about being drunk?

- You ask a glass of water.

O Guia do Mochileiro das Galáxias

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

"de loucura rompeu-se-me o dique da razão"


.
"Alô!
Quem fala?
Mamãe?
Mãe!
Teu filho está esplendidamente enfermo.
Tem um incêndio no coração.
.
(...)
.
Mãe!
Não posso mais cantar.
No templo de meu coração
o altar está em chamas!
Palavras e números
como figuras ardentes
fogem de meu crânio
como crianças de uma casa em fogo.
Era assim que o pavor
de não poder agarrar-se nas nuvens
erguia os braços-labaredas do Lusitânia.
.
Ante a tímida gente
que vive na paz caseira
ergue-se um halo de incêndio
de mil olhos.
Ó meu derradeiro grito!
Dize aos séculos futuros
pelo menos isto:
Que eu estou em chamas.
(1915)
[Maiakóvski - Antologia POética. 4ª edição. Tradução de E. Carrera Guerra]
.
Extrema e lindamente apaixonado. Sempre. Assim foi [e é] Vladimir Maiakóvski. Para sempre ferido mortalmente pelo amor.
.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Estradas

"As estradas são encaradas por de Selby como os mais remotos dos monumentos humanos, ultrapassando em muitas dezenas de séculos o mais antigo objeto de pedra que o homem tenha erigido para assinalar a sua passagem. O passo do tempo, diz ele, uniforme em todas as outras partes, apenas bateu com uma firmeza mais duradoura os caminhos que foram abertos pelo mundo a fora. De Selby assevera também que uma boa estrada tem que ter caráter e um ar de destino, uma insinuação indefinível de que está indo para algum lugar, seja para leste e para oeste, e não retornando de lá. Se você seguir por tal estrada, acha ele, ela lhe oferecerá uma viagem agradável, belas vistas em cada curva e uma tranqüila facilidade de peregrinação que o convencerá de que está endando permanentemente em declives. Mas se você rumar para leste numa estrada que está seguindo para oeste, ficará admirado com a aridez de cada paisagem e o enorme número de aclives calejantes que o confrontará para fatigá-lo. Caso uma estrada amistosa o levasse a entrar numa cidade complicada com um emaranhado de ruas sinuosas e quinhentas outras estradas saindo dela com destinos ignorados, sua própria estrada será sempre discernível por si mesma e o conduzirá para fora da cidade confusa."

Horas Douradas, VI, 156.

domingo, 24 de dezembro de 2006

belo belo minha bela...


"O senhor em beleza. Seu Chico. Beleza demais é contravenção"
Tom Zé

terça-feira, 1 de agosto de 2006

E então, que quereis?...


Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.
Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.
.
Maiakovski(1927)